O Globo| O que deu errado no Starbucks no Brasil? Dona da marca pede recuperação judicial

O que deu errado no Starbucks no Brasil? Dona da marca pede recuperação judicial

Analistas explicam motivos para a crise financeira da maior rede de cafeterias do mundo

Por 

Bruno Rosa e João Sorima Neto

01/11/2023 16h35  Atualizado há 2 semanas

O latte machiato da Starbucks com o nome do cliente no copo não resistiu ao crescimento do tradicional café expresso e aos efeitos da pandemia no Brasil. O pedido de recuperação judicial da SouthRock Capital, dona ainda de marcas como Subway e Eataly, evidencia a dificuldade de empresas do setor de alimentação em em lidar com os efeitos da economia no pós-pandemia. Juros altos, inflação persistente, cardápio com preços elevados e uma concorrência cada vez maior fizeram o grupo pedir proteção após somar dívidas de R$ 1,8 bilhão.

pedido de recuperação judicial negado pela Justiça no início da noite desta quarta-feira. A SouthRock já informou que irá recorrer da decisão judicial, que não tem caráter definitivo.

Na avaliação do economista Roberto Kanter, professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da consultoria Canal Vertical, os problemas financeiros do grupo começaram a ganhar força ainda na pandemia. Ele lembra seus principais produtos, como os cafés especiais e os muffins vendidos pela Starbucks não foram beneficiados pelo crescimento do delivery durante o confinamento, o que impactou a receita por anos.

Além disso, ele lembra que, com a reabertura do varejo com o fim da pandemia, os shoppings e os donos de imóveis passaram a endurecer as negociações de alugueis, por exemplo.

-Foi, então, uma derrota dupla, nesse sentido, pois ninguém entra no delivery para pedir um café ou um sanduíche do Subway. E o grupo se endividou muito antes da pandemia para crescer pelo país. E, como a receita não avançou, a crise financeira foi se agravando – explica Kanter.

O economista da FGV lembra ainda que o Starbucks, a principal marca do grupo, enfrenta uma concorrência crescente no país no segmento voltado para as classes de maior renda, com o avanço de marcas como Kopenhagen, Nespresso, Havana e The Coffee no setor de cafeterias.

-O Starbucks vende mais que café. É uma experiência. Além disso, apesar de a rede ter criado opções brasileiras em seu cardápio, muitas coisas não emplacaram como a venda de acessórios, como copos, blusas e pacotes de café. A marca também não é do grupo e isso impacta no caixa da companhia, pois no caso da Nespresso, que é da Nestlé, eles conseguem alocar custos em outros países de forma a deixar o produto mais competitivo – avalia Kanter.

Para Percival Maricato, membro do conselho da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), de São Paulo, a operação da rede Starbucks é cara, já que as lojas geralmente ficam em shoppings ou prédios em locais considerados mais sofisticados. Embora os cafés tenham preço mais elevado que o tradicional "cafezinho", é preciso uma gestão muito precisa para que se chegue ao equilíbrio financeiro.

— Muitas vezes, há cinco ou seis mesas, que ficam ocupadas com gente trabalhando no computador ou jovens na internet, durante horas no local. É gente que consome pouco, um café, um bolo. É preciso uma gestão de custos muito bem feita para buscar o equilíbrio. É difícil limitar o tempo de uso das mesas, já que essa é exatamente a proposta do local — diz Maricato, lembrando que se em cenário de economia crescente esse equilíbrio já é difícil, num contexto de juros altos e inflação a operação fica ainda mais complexa.

Maricato lembra que os restaurantes que estão em aeroportos também são operações caras, especialmente o aluguel de um espaço. E, nesses locais, trata-se de um cliente de oportunidade, não um cliente fidelizado.

— A pessoa passa em frente e entra para comer. Trata-se de um cliente de oportunidade, que não é fiel. Já vi gente que faturava muito em restaurante de aeroporto quebrar — avalia.

Maricato lembra que os restaurantes que estão em aeroportos também são operações caras, especialmente o aluguel de um espaço. E, nesses locais, trata-se de um cliente de oportunidade, não um cliente fidelizado.

— A pessoa passa em frente e entra para comer. Trata-se de um cliente de oportunidade, que não é fiel. Já vi gente que faturava muito em restaurante de aeroporto quebrar — avalia.

Para Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, especialista em reestruturação, o pedido de RJ do grupo SouthRock segue o que temos visto recorrentemente: as empresas tiveram queda de vendas durante a pandemia e não se recuperaram totalmente, para segurar as operações e inadimplência. Se alavancaram com taxas que na época não eram tão elevadas. Porém, com o aumento da Selic, começaram a ter dificuldade de honrar os pagamentos, uma vez que o custo financeiro se elevou muito.

— Elas tentaram renegociar/rolar as dívidas, mas as instituições financeiras apertaram a torneira do crédito, principalmente pelas incertezas econômicas do Brasil (nova direção de política econômica da troca de governo) e pela pancada que sofreram com o caso da Americanas no início do ano. Nossa expectativa é que esta situação apresente uma melhora no segundo semestre do ano que vem com reduções graduais da taxa basica de juros e menor aversão a risco das instituições financeiras, que pode desafogar um pouco as empresas. O problema é que muitas empresas não vão aguentar até lá e certamente ainda teremos mais notícias de grandes grupos entrando em RJ, assim como temos dito nos últimos meses.

O pedido da SouthRock parece se tratar de uma consequência da pandemia, que devastou o setor de bares e restaurantes, com a empresa citando queda nas vendas de suas franquias e inadimplência de parceiros diz Fabiano Diefenthaeler, sócio do Schuch Advogados, especializado em Direito Empresarial..

Mas a informação de que a Starbucks Coffee International rescindiu a licença para explorar a marca Starbucks no Brasil certamente foi um ponto crucial para a adoção da medida, já que a operação é responsável por parcela importante do fluxo de caixa do grupo.

— O pedido da SouthRock, inclusive, visa que que o direito de uso da marca Starbucks seja mantido durante o período de recuperação judicial. Resta saber as consequências para os contratos de licenciamento de outros clientes, que potencialmente incluem possibilidade de rescisão por pedido ou decretação de recuperação judicial — afirma Diefenthaeler.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/11/01/o-que-deu-errado-no-starbucks-no-brasil-dona-da-marca-pede-recuperacao-judicial.ghtml

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